Marcos Bagno e as aulas online para Enem


Um dos pontos mais importantes para quem fará a prova do Enem é entender que a interpretação de texto depende de muitos outros conhecimentos que, de maneira isolada, parecem não fazer muito sentido. A compreensão das figuras e funções da linguagem, o uso da linguagem figurada ou da linguagem denotativa, a organização do discurso e por aí vai. Cada candidato que sonhe em olhar o resultado do Enem e ficar feliz precisa fazer vários exercícios e contar com aulas online de revisão para o Enem.

Leia o texto VI: trecho de um artigo do professor de Linguística da UNB, Marcos Bagno.

NADA NA LÍNGUA É POR ACASO:

ciência e senso comum na educação em língua materna

Quando o assunto é língua, existem na sociedade duas ordens de discurso que se contrapõem: (1) o discurso científico, embasado nas teorias da Lingüística moderna, que trabalha com as noções de variação e mudança; e (2) o discurso do senso comum, impregnado de concepções arcaicas sobre a linguagem e de preconceitos sociais fortemente arraigados, que opera com a noção de erro.

Para as ciências da linguagem, não existe erro na língua. Se a língua é entendida como um sistema de sons e significados que se organizam sintaticamente para permitir a interação humana, toda e qualquer manifestação lingüística cumpre essa função plenamente. A noção de "erro" se prende a fenômenos sociais e culturais, que não estão incluídos no campo de interesse da Lingüística propriamente dita, isto é, da ciência que estuda a língua "em si mesma", em seus aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos. Para analisar as origens e as consequências da noção de "erro" na história das línguas será preciso recorrer a uma outra ciência, necessariamente interdisciplinar, a Sociolingüística, entendida aqui em sentido muito amplo, como o estudo das relações sociais intermediadas pela linguagem.

A noção de "erro" em língua nasce, no mundo ocidental, junto com as primeiras descrições sistemáticas de uma língua (a grega), empreendidas no mundo de cultura helenística, particularmente na cidade de Alexandria (Egito), que era o mais importante centro de cultura grega no século III a.C.
Como a língua grega tinha se tornado o idioma oficial do grande império formado pelas conquistas de Alexandre (356-323 a.C.), surgiu a necessidade de normatizar essa língua, ou seja, de criar um padrão uniforme e homogêneo que se erguesse acima das diferenças regionais e sociais para se transformar num instrumento de unificação política e cultural.

Data desse período o surgimento daquilo que hoje se chama, nos estudos linguísticos, de Gramática Tradicional - um conjunto de noções acerca da língua e da linguagem que representou o início dos estudos lingüísticos no Ocidente. Sendo uma abordagem não-científica, nos termos modernos de ciência, a Gramática Tradicional combinava intuições filosóficas e preconceitos sociais.

As intuições filosóficas que sustentam a Gramática Tradicional estão presentes até hoje na nomenclatura gramatical e nas definições que aparecem ali. Por exemplo, a noção de sujeito que encontramos em importantes compêndios normativos se expressa como "o sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração", ou coisa equivalente. Como é fácil perceber, não se trata de uma definição lingüística - nada se diz aí a respeito das funções do sujeito na sintaxe nem das características morfológicas do sujeito -, mas sim de uma definição metafísica, em que o próprio uso da palavra "ser" denuncia uma análise de cunho filosófico. Com isso, o emprego desta noção para um estudo propriamente lingüístico fica comprometido. Para comprovar isso, vamos examinar o seguinte enunciado:

(1) Nesta sala cabem duzentas pessoas.

Se tivermos de considerar a definição tradicional, seremos obrigados a classificar como sujeito o elemento "sala" do enunciado acima, já que é sobre a sala que se está "dizendo alguma coisa", se está "declarando algo". Ora, todos sabemos que no enunciado (1) o sujeito é "duzentas pessoas", porque, numa definição propriamente lingüística, o sujeito é o termo sobre o qual recai a predicação da oração e com o qual o verbo concorda.

Dificuldades semelhantes de lidar com as definições tradicionais aparecem quase a cada passo quando as estudamos com cuidado. Isso porque, repito, a Gramática Tradicional, ao se formar no século III a.C. como uma disciplina com pretensões ao estudo da língua (...) não produziu um corpo teórico propriamente lingüístico, mas se valeu de um importante aparato de especulações filosóficas que vinha se gestando na cultura grega desde o século V a.C., graças ao trabalho dos sofistas, de Platão, de Aristóteles Por tudo isso, a Gramática Tradicional merece ser estudada, como um importante patrimônio cultural do Ocidente, mas não para ser aplicada cegamente como única teoria lingüística válida nem, muito menos, como instrumental adequado para o ensino.

Além de ser anacrônica como teoria lingüística, a Gramática Tradicional também se constituiu com base em preconceitos sociais que revelam o tipo de sociedade em que ela surgiu - preconceitos que vêm sendo sistematicamente denunciados e combatidos desde o início da era moderna e mais enfaticamente nos últimos cem anos. Como produto intelectual de uma sociedade aristocrática, escravagista, oligárquica, fortemente hierarquizada, a Gramática Tradicional adotou como modelo de língua "exemplar" o uso característico de um grupo restrito de falantes:

" do sexo masculino;

" livres (não-escravos);

" membros da elite cultural (letrados);

" cidadãos (eleitores e elegíveis);

" membros da aristocracia política;

" detentores da riqueza econômica.

Os formuladores da Gramática Tradicional foram os primeiros a perceber as duas grandes características das línguas humanas: a variação (no tempo presente) e a mudança (com o passar do tempo). No entanto, a percepção que eles tiveram da variação e da mudança lingüísticas foi essencialmente negativa.
Por causa de seus preconceitos sociais, os primeiros gramáticos consideravam que somente os cidadãos do sexo masculino, membros da elite urbana, letrada e aristocrática falavam bem a língua. Com isso, todas as demais variedades regionais e sociais foram consideradas feias, corrompidas, defeituosas, pobres etc.
Ainda na questão da variação, os primeiros gramáticos, comparando a língua escrita dos grandes escritores do passado e a língua falada espontânea, concluíram que a língua falada era caótica, sem regras, ilógica, e que somente a língua escrita literária merecia ser estudada, analisada e servir de base para o modelo do "bom uso" do idioma. Essa separação rígida entre fala e escrita é rejeitada pelos estudos lingüísticos contemporâneos, mas continua viva na mentalidade da grande maioria das pessoas.

Fonte: (Artigo de Marcos Bagno publicado na revista Presença Pedagógica em setembro de 2006 e acessado no site http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/textos.htm acessado em 08/12/2008.

QUESTÃO 16 (Descritor: identificar recursos de argumetação).

Assunto: língua portuguesa: variação e mudança.

Assinale a alternativa que APRESENTA um recurso argumentativo ausente no texto de Bagno.

a) Definição

b) Congratulação ao senso-comum

c) Exemplificação

d) Descrição sócio-histórica

e) Crítica a definições contrárias.

QUESTÃO 17 (Descritor: deduzir exemplos a partir de um conceito).enem-imagem-descomplica-é-bom-para-o-enem

Assunto: língua portuguesa: variação e mudança.

Releia a definição de língua construída por Marcos Bagno:

“Se a língua é entendida como um sistema de sons e significados que se organizam sintaticamente para permitir a interação humana, toda e qualquer manifestação lingüística cumpre essa função plenamente.”.

Mesmo a definição de língua do autor sendo abrangente, é possível conceber exemplos de manifestações lingüísticas nas quais não se cumpre a função defendida acima. Assinale a alternativa em que o enunciado pode se CONFIGURAR como um erro sob a perspectiva de Bagno.

a) Os meninos jogamos futebol.

b) Faz dois dias que constatei o inefável.

c) Os menino vai pescá.

d) Ventilador o trave abrir a e que num.

e) Aki, vc tah blz hj? Bjo! :)

QUESTÃO 18 (Descritor: verificar pertinência da interpretação).

Assunto: língua portuguesa: variação e mudança.

Sobre o texto de Marcos Bagno, é RAZOÁVEL afirmar que

a) O autor se mostra contrário ao uso da gramática em sala-de-aula.

b) Vê a lingüística como uma ciência que poda a criatividade.

c) Afirma que o preconceito tem suas origens alhures.

d) Sentencia que o erro é um processo que não pode ser relativizado.

e) Faz aproximações entre a fala e a escrita.

QUESTÃO 19 (Descritor: distinguir diferentes pontos de vista).

Assunto: língua portuguesa: a dimensão discursiva do texto.

Assinale a alternativa em que o enunciador se mostra IMPARCIAL no que diz respeito à gramática normativa.

a) “(...) concluíram que a língua falada era caótica, sem regras, ilógica, e que somente a língua escrita literária merecia ser estudada”.

b) “(...) não produziu um corpo teórico propriamente lingüístico, mas se valeu de um importante aparato de especulações filosóficas”

c) “(...) mas não para ser aplicada cegamente como única teoria lingüística válida nem, muito menos, como instrumental adequado para o ensino.”

d) “Sendo uma abordagem não-científica, nos termos modernos de ciência, a Gramática Tradicional combinava intuições filosóficas e preconceitos sociais”.

e) “(...) não se trata de uma definição lingüística - nada se diz aí a respeito das funções do sujeito na sintaxe nem das características morfológicas do sujeito”.

QUESTÃO 20 (Descritor: identificar mudança de sentida em função de mudança de termos).

Assunto: língua portuguesa: variação e mudança.

Assinale a alternativa em que há PERDA de sentido pela mudança do termo grifado pelo que consta ente parênteses.

a) “As intuições filosóficas que sustentam a Gramática Tradicional estão presentes até hoje”. (os entendimentos).

b) “A noção de "erro" em língua nasce (...), junto com as primeiras descrições sistemáticas de uma língua...” (perspectiva).

c) “(...) será preciso recorrer a uma outra ciência (...) a Sociolingüística, entendida aqui em sentido muito amplo” (dilatado).

d) “Sendo uma abordagem não-científica, (...) a Gramática Tradicional combinava intuições filosóficas e preconceitos sociais”. (visão).

e) “(...) mas se valeu de um importante aparato de especulações filosóficas que vinha se gestando na cultura grega.” (aparecendo).

gabarito dos exercícios de Português

QUESTÃO 16

B

QUESTÃO 17

D

QUESTÃO 18

C

QUESTÃO 19

A

QUESTÃO 20

E


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