Análise do tema de redação do Enem e comentários


Analisar um tema antigo com profundidade é excelente caminho para consolidarmos nosso aprendizado sobre as características da prova do Enem e para nos prepararmos para a prova deste ano.
Apresentamos, a seguir, algumas reflexões sobre o tema cobrado no ano passado. Primeiro, leia apenas a proposta de redação e pense, sozinho, sobre suas características e sobre a melhor forma de abordar o tema. Em seguida, acompanhe nossos comentários para ver que pontos precisam ser ajustados. Boa leitura!

Proposta de redação

A partir da leitura dos textos motivadores seguintes e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema O MOVIMENTO IMIGRATÓRIO PARA O BRASIL NO SÉCULO XXI, apresentando proposta de intervenção, que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

Ao desembarcar no Brasil, os imigrantes trouxeram muito mais anseio de refazer suas vidas trabalhando nas lavouras de café e no início da indústria paulista. Nos séculos XIX e XX, os representantes de mais de 70 nacionalidades e etnias chegaram com o sonho de "fazer a América" e acabaram por contribuir expressivamente para a história do país e para cultura brasileira. Deles, o Brasil herdou sobrenomes, sotaques, costumes, comidas e vestimentas.

A história da migração humana não deve ser encarada como uma questão relacionada exclusivamente ao passado: há a necessidade tratar sobre deslocamentos mais recentes.

Acre sofre com invasão de imigrantes do Haiti

Nos últimos três dias de 2011, uma leva de 500 haitianos entrou ilegalmente no Brasil pelo Acre, elevando para 1400 a quantidade de imigrantes daquele país no município de Brasileira (AC). Segundo o secretário-adjunto de Justiça e Direitos Humanos do Acre, José Henrique Corinto, os haitianos ocuparam a praça da cidade. A Defesa Civil do estado enviou galões de água potável e alimentos, mas ainda não providenciou abrigo.

A imigração ocorre porque o Haiti ainda não se recuperou dos estragos causados pelo terremoto de janeiro de 2010. O primeiro grande grupo de haitianos chegou a Brasileira no dia 14 de janeiro de 2011. Deste então, a entrada ilegal continua, mas eles não são expulsos: obtêm visto humanitário e conseguem tirar carteira de trabalho e CPF para morar e trabalhar no Brasil.

Segundo Corinto, ao contrário do que se imagina, não são haitianos miseráveis que buscas o Brasil para viver, mas pessoas da classe média do Haiti e profissionais qualificados, como engenheiros, professores, advogados, pedreiros, mestres de obras e carpinteiros. Porém, a maioria chega sem dinheiro.

Os brasileiros sempre criticaram a forma como os países europeus tratavam imigrantes. Agora, chegou a nossa vez - afirma Corinto.

Trilha da Costura

Os imigrantes bolivianos, pelo último censo, são mais de 3 milhões, com população de aproximadamente 9,119 milhões de pessoas. A Bolívia em termos de IDH ocupa a posição de 114° de acordo com os parâmetros estabelecidos pela ONU. O país está no centro da América do Sul e é o mais pobre, sendo 70% da população considerada miserável. Os principais países para onde os bolivianos imigrantes dirigem-se são: Argentina, Brasil, Espanha e Estados Unidos.

Assim sendo, este é o quadro social em que se encontra a maioria da população Boliviana, estes dados já demonstraram que as motivações do fluxo de imigração não são políticas, mas econômicas. Como a maioria da população tem baixa qualificação, os trabalhos artesanais, culturais, de campo e de costura são os de mais fácil acesso.
OLIVEIRA, R.T.
Instruções

•  O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado.
•  O texto definitivo deve ser escrito à tinta, na folha própria, em até 30 linhas.
•  A redação com até 7 (sete) linhas escritas será considerada insuficiente e receberá nota zero.
•  A redação que fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo receberá nota zero.
•  A redação que apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos receberá nota zero.
•  A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá o número de linhas copiadas desconsiderado para efeitos de correção.

COMENTÁRIOS

1. A opção de tema

No seu edital, o Enem deixa claro que sua proposta da Redação é elaborada de forma a possibilitar que os participantes, a partir de uma situação problema e de subsídios oferecidos, realizem uma reflexão escrita sobre um tema de ordem política, social ou cultural, produzindo um texto de tipo dissertativo-argumentativo.

Por isso, não chega a causar surpresa a opção pelo tema O MOVIMENTO IMIGRATÓRIO PARA O BRASIL NO SÉCULO XXI. Além de exigir dos candidatos uma reflexão sobre uma questão importantíssima dentro do quadro socioeconômico atual, a banca sai de questões mais óbvias, como a violência e o meio ambiente, permitindo que os candidatos mais bem preparados sobressaiam. Prova maior ainda desse refinamento é que a"situação problema", mencionada no edital, não aparece explicitamente na frase-tema. Caberia ao candidato refletir sobre essa questão, com auxílio da coletânea, para que se pensasse no desafio suscitado e na intervenção necessária.

2. A frase-tema

É sempre importante começarmos uma dissertação pela análise das palavras que compõem a frase-tema. Repare que, embora a coletânea induzisse o candidato a focar casos específicos, como o dos haitianos e bolivianos, a frase em questão sugere que a preocupação deveria recair sobre o fenômeno "movimento imigratório para o Brasil" na atualidade e no futuro próximo ("século XXI").

3.  Coletânea

Composta por três textos, como já é costumeiro no Enem, a coletânea oferecida aos candidatos dava plenos subsídios para que uma redação consistente pudesse ser elaborada, ainda que não se tivesse conhecimento prévio sobre a questão.

O primeiro texto procura demonstrar que o acolhimento de imigrantes não é um fenômeno estranho à nossa cultura. Pelo contrário, nossa formação identitária revela traços inequívocos da presença de diferentes culturas em nosso território, em diálogo permanente. Em vez de um "lugar para trabalhar", os imigrantes buscariam "um novo lar".

A matéria sobre os haitianos ilegais no Acre é bastante provocativa. Depois de apresentar elementos referenciais no primeiro parágrafo, o locutor, sutilmente, passa a manifestar sua subjetividade. Perceba que a construção "Deste então, a entrada ilegal continua, mas eles não são expulsos" é, argumentativamente, favorável à permanência do grupo de imigrantes no território. Para fundamentar sua tese, ele aponta justificativas humanitárias (obtêm visto humanitário e conseguem tirar carteira de trabalho e CPF para morar e trabalhar no Brasil). O texto deixa claro, ainda, que não são apenas pessoas miseráveis que buscam abrigo na nossa terra, mas também profissionais qualificados que,sem dinheiro,buscam oportunidades de reconstruir suas vidas.O secretário-adjunto José Henrique Corinto deixa no ar uma reflexão importante: "Os brasileiros sempre criticaram a forma como os países europeus tratavam imigrantes. Agora, chegou a nossa vez".

O último texto aborda a questão dos bolivianos que, por viverem em condições miseráveis, têm procurado abrigo em países mais desenvolvidos, como o Brasil, dando ênfase à questão econômica para justificar esse movimento.

Em resumo, eis as ideias centrais:

Texto I

O Brasil é, histórica e culturalmente, bastante receptivo à imigração.

Texto II

Brasileiros sempre criticaram outros países pela intolerância e pelo desrespeito aos direitos humanos. Há pessoas qualificadas que buscam o nosso território.

Texto III

Brasil como potência regional, principalmente no que se refere à pujança econômica.

4. A relação entre a frase-tema e a coletânea: problematização

A coletânea nos permite entender o problema a ser enfrentado e para o qual se deve propor uma intervenção. É inegável que estamos diante de um processo de imigração (cujo destino é o Brasil), motivado pelo atual cenário de estabilidade econômica. Também é certo que nosso país sempre buscou a interação com diversas culturas para crescer. No entanto, estaríamos preparados para lidar com essa questão, dentro da conjuntura atual?

Muito mais que apenas explicar o movimento migratório (suas causas e consequências) era fundamental que se refletisse sobre o desafio que nos está sendo imposto por essa circunstância histórica, para que pudéssemos assumir uma tese, argumentar para sustentá-la e propor uma intervenção, com respeito aos direitos humanos.

5.  Encaminhamentos possíveis

É perfeitamente possível que o candidato se posicione em qualquer dos polos dessa discussão.
Parece que expressiva parte dos candidatos se posicionou contra a entrada de imigrantes ilegais, alegando que já teríamos mão de obra abundante e que precisaríamos garantir emprego e oportunidade para brasileiros, num país que ainda vive grandes desigualdades sociais.

Optando por esse viés argumentativo, deve-se tomar cuidado para que a proposta de intervenção respeite os direitos humanos e para que ela não seja utópica. Por exemplo, sugerir o patrulhamento das fronteiras, a exemplo do que fazem os americanos na divisa com o México, num país com nossas dimensões continentais, pode soar utópico. Uma boa possibilidade seria propor a cooperação econômica entre Brasil e países vizinhos, para que eles se fortalecessem, e seus habitantes não buscassem a imigração como forma de reconstruir a vida.

Outra parte dos candidatos mostrou-se favorável à inclusão desses imigrantes à nossa sociedade, apoiando-se em questões humanitárias, na diversidade característica da nossa formação cultural e no potencial econômico a ser desenvolvido no país.

Nessa linha, seria interessante propor, por exemplo, que se permitisse a incorporação digna desses novos membros à sociedade, fazendo com que eles tenham acesso a emprego e a programas sociais oferecidos pelo governo à população de baixa renda. Sob outro aspecto, o candidato poderia defender a necessidade de reforçarmos as bases do respeito e da tolerância no nosso território, para evitarmos episódios de violência (física e moral) que muitos países desenvolvidos enfrentam há anos.

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