OS TEXTOS E A MUSICALIDADE DOS FONEMAS


Os sons da língua podem (e devem) ser trabalhados como recurso expressivo; afinal, eles nos dizem muitas coisas! Num primeiro momento, podemos entender que esse é um recurso típico dos textos poéticos, mas, apurando os ouvidos, perceberemos um intenso trabalho com a sonoridade das palavras em textos publicitários, provérbios, brincadeiras como trava-línguas e "o que é, o que é?" ou mesmo nos mais simples textos do cotidiano:

"Deus ajuda quem cedo madruga"
"Três pratos de trigo para três tigres tristes"
"Está no meio do começo, está no começo do meio; estando em ambos assim, está na ponta do fim."

Como você percebeu, essa última adivinha brinca com a letra m.

Repare, por exemplo, que podemos clarear ou escurecer um texto trabalhando, respectivamente, as vogais representadas pelas letras a ou u. Quanto às consoantes, há aquelas que vibram (como as representadas por r ou rr), as que estalam (as representadas por t e d), as que explodem (p, b), as que pulam (1), as que sibilam ou zunem (s, ss, z).

Leia em voz alta a seguinte estrofe do poema "Pichação", de Anna Flora:

"No claro
Pablo pintava parede.
No escuro
Pedro pichava muro."

FLORA, Anna. Em volta do quarteirão. Rio de Janeiro: Salamandra, 1986. [s.p.].

Na estrofe há quatro versos irregulares e uma rima (escuro/muro). Podemos dividi-la em duas partes perfeitamente simétricas:

No claro                                               No escuro
Pablo pintava parede.                             Pedro pichava muro.


 

A simetria é tão perfeita que há cinco palavras em cada parte, formando pares de mesma categoria gramatical: contrações de preposição + artigo (No/No), adjetivos (claro/escuro), substantivos próprios (Pa-blo/Pedro), verbos (pintava/pichava), substantivos comuns (parede/muro). Podemos afirmar, ainda, que a primeira parte é o espaço do claro, do permitido, do legal, e que a segunda parte é o espaço do escuro, do proibido, do ilegal. E o mais belo é que esses conceitos e essas sensações nos são passados pelo ritmo obtido, principalmente pela exploração da vogal a na primeira parte da estrofe e da vogal u na segunda. Observe que o som da vogal a é claro, aberto (escancaramos a boca para pronunciá-lo) e que o som da vogal u é escuro, fechado (afunilamos a boca para pronunciá-lo).
Observe, ainda, que há outro elemento responsável pelo ritmo dinâmico da estrofe: a repetição do fonema bilabial p (apoiada pelo aproveitamento dos fonemas bilabiais bem). Leia mais uma vez em voz alta a estrofe do poema de Anna Flora; relacione o ritmo com o significado das palavras.

Muito bom, não é?


É bom que se diga, no entanto, que estes recursos são desejáveis em textos de alguns gêneros. Na dissertação do vestibular ou Enem, por exemplo, não se deve lançar mão de recursos próprios dos textos poéticos. A modalidade desejada, ou melhor, exigida, é a formal. Quer saber mais sobre o texto dissertativo no Enem e vestibular, clique aqui.

Postar um comentário